Laura Muller

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O Globo: Infecção pelo HIV afeta desenvolvimento cerebral de crianças

postado em 18/10/2017 17:11 / atualizado em 01/11/2017 16:50
Por: Laura Muller

A infecção pelo HIV altera o desenvolvimento do cérebro de crianças pequenas, mesmo quando elas recebem tratamento antirretroviral desde muito novas, mostra estudo publicado nessa terça-feira (17) no periódico científico “Frontiers in Neuroanatomy”. O estudo revela ainda que crianças que tenham sido apenas exposta ao vírus, mesmo sem terem sido infectadas, também parecem ter seu desenvolvimento cerebral afetado.

Mesmo com tantos avanços no tratamento do HIV que estão permitindo que milhões de pessoas vivam mais, e mais saudáveis, com o vírus causador da aids, o combate a infecção em bebês e crianças ainda é muito complexo. E mesmo que o HIV possa provocar anormalidades no desenvolvimento do cérebro, as intervenções medicamentosas também podem prejudicar a criança.

Assim, embora crianças pequenas há muito tempo tenham acesso aos remédios na África do Sul, foi só a partir de 2008 que o tratamento de recém-nascidos se tornou padrão no país, um dos mais atingidos pela epidemia no mundo, depois da publicação de dados preliminares de um ensaio clínico conhecido como Cher (sigla em inglês para Antirretrovirais Cedo para Crianças com HIV). E diante desta primeira era do tratamento precoce, cientistas estão buscando entender melhor como a infecção pelo vírus afeta o desenvolvimento de uma criança, especialmente o neural.

“Mesmo com as terapias antirretrovirais desde cedo, continuamos a observar danos na matéria branca aos sete anos de idade, com novos danos se tornando evidentes entre os cinco e sete anos”, conta Marcin Jankiewicz, pesquisadora da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, e primeira autora do estudo. “Estas observações em crianças soropositivas apontam para perturbações correntes no desenvolvimento da matéria branca a despeito da terapia antirretroviral e da supressão viral.”

No estudo, os pesquisadores usaram uma avança técnica de exames de ressonância magnética para examinar diferenças em um tipo de tecido cerebral, a mencionada matéria branca, entre dois grupos de crianças de sete anos: 65 soropositivas e 46 não infectadas. A matéria branca tem um papel importante na transmissão de informação entre as várias regiões do cérebro, e o estudo confirmou a existência de diferenças na microestrutura de alguns trechos dela entre as crianças infectadas e as não infectadas, mesmo com todas as crianças soropositivas tendo iniciado o tratamento aos 18 meses de idade durante o ensaio do Cher na Cidade do Cabo e Soweto. Elas já tinham sido submetidas a exames similares quando tinham cinco anos de idade.

“A coorte do Cher é um dos maiores e melhor documentados ensaios de crianças recebendo terapias antirretrovirais ainda nos primeiros dois anos de vida”, lembra. “E como os bebês infectados e não infectados foram recrutados em paralelo com a mesma idade e nas mesmas comunidades por nossos colegas na Universidade de Stellenbosch, pudemos acompanhar seu desenvolvimento cerebral nos primeiros anos da infância em um “subestudo” sobre neurodesenvolvimento e tivemos a incrível oportunidade de adicionar exames avançados de neuroimageamento a estas avaliações.”

O “subestudo” de neurodesenvolvimento também incluiu crianças que foram expostas ao HIV, mas acabaram não sendo infectadas – como quando, por exemplo, a mãe foi infectada durante a gravidez, mas o vírus não foi passado para o feto no útero ou o recém-nascido durante o parto. Estas crianças integraram um subgrupo do estudo, abrindo uma janela para observar as consequências da exposição ao vírus e aos antirretrovirais na ausência de infecção. E os cientistas observaram que mesmo assim elas parecem ter o desenvolvimento da matéria branca afetado.

Embora destaque que o estudo é limitado em tamanho e que as futuras implicações de tais anormalidades no desenvolvimento cerebral ainda precisem ser determinadas, Jankiewicz espera que seus estudos contribuam para uma melhor compreensão do desenvolvimento cerebral de crianças infectadas ou expostas ao HIV, assim como os impactos de tratamentos antirretrovirais de longo prazo.

“Esperamos que nosso trabalho eventualmente ajude a identificar as partes do cérebro que são particularmente mais vulneráveis ao HIV ou aos antirretrovirais e deixar claro como a escolha do momento para início da terapia afeta o desenvolvimento do cérebro”, conclui Jankiewicz. “Isto pode ajudar a determinar as políticas de tratamento, melhorar as combinações de drogas e guiar as estratégias de intervenção precoce.”

Fonte: Agência Aids




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